PROVEM QUE O ESPIRITISMO ESTÁ ERRADO!

 

(...)

        Dar a conhecer os abusos, desmascarar a fraude e a hipocrisia onde quer que se encontrem, é, sem dúvida, prestar um grande serviço. Mas julgamos que é fazer grande mal à sociedade, assim como aos indivíduos, atacar o princípio em virtude de terem dele abusado; é querer cortar a boa árvore, porque deu um fruto estragado. Bem compreendido, o Espiritismo, dando a conhecer a causa de certos fenômenos, mostra o que é possível e o que não o é. Por isto mesmo, tende a destruir as ideias realmente supersticiosas; mas, ao mesmo tempo, demonstrando o princípio, dá um objetivo ao bem; fortalece as crenças fundamentais que a incredulidade ataca com violência a pretexto do abuso; combate a chaga do materialismo, que é a negação do dever, da moral e de toda esperança, e é por isto que dizemos que um dia ele será a salvaguarda da sociedade.

Aliás, estamos longe de nos lamentar pela obra do Sr. Figuier. Sobre os adeptos da doutrina ela não poderá ter nenhuma influência, pois eles reconhecerão imediatamente os pontos vulneráveis. Sobre os outros, terá o efeito de todas as críticas: o de provocar a curiosidade. Depois da aparição, ou melhor, da reaparição do Espiritismo, muito se tem escrito contra ele. Não lhe pouparam sarcasmos, nem injúrias. Apenas de uma coisa ele não teve a honra, graças aos costumes do tempo: a fogueira. Isto o impediu de progredir? Absolutamente, pois hoje conta seus aderentes por milhões em todas as partes do mundo e estes todos os dias aumentam. Para isto, e sem o querer, muito contribuiu a crítica, porque, como dissemos, seu efeito é o de provocar o exame. Querem ver o pró e o contra e ficam admirados por encontrarem uma doutrina racional, lógica, consoladora, que acalma as angústias da dúvida, resolvendo o que nenhuma filosofia pôde resolver, quando pensavam apenas encontrar uma crença ridícula. Quanto mais conhecido o nome do contraditor, mais repercussão tem a sua crítica e mais bem ela pode fazer, chamando a atenção dos indiferentes. A esse respeito, a obra do Sr. Figuier está nas melhores condições: além de escrita de maneira muito séria, não se arrasta na lama das injúrias grosseiras e do personalismo, únicos argumentos dos críticos de baixo nível. Desde que pretende tratar o assunto do ponto de vista científico, e sua posição lho permite, ver-se-á nisso a última palavra da Ciência contra esta doutrina e então o público saberá a quantas se anda. Se a douta obra do Sr. Figuier não tiver o poder de lhe dar o golpe de misericórdia, duvidamos que outros sejam mais felizes. Para combatê-la com eficácia, ele só tem um meio, que lhe indicamos com prazer. Não se destrói uma árvore cortando-lhe os galhos, mas a raiz. É necessário, pois, atacar o Espiritismo pela raiz, e não nos ramos, que renascem à medida que são cortados. Ora, as raízes do Espiritismo, desta alucinação do século dezenove, para nos servirmos de sua expressão, são a alma e os seus atributos. Que, pois, ele prove que a alma não existe e não pode existir, porquanto sem almas não há mais Espíritos. Quando tiver provado isto, o Espiritismo não terá mais razão de ser e nós nos confessaremos vencidos. Se o seu cepticismo não chega até esse ponto, que prove, não por uma simples negação, mas por uma demonstração matemática, física, química, mecânica, fisiológica ou qualquer outra:

1º Que o ser que pensa em vida é incapaz de pensar após a morte;

2º Que, se pensa, não deve mais querer comunicar-se com aqueles a quem amou;

3º Que, se pode estar em toda parte, não pode estar ao nosso lado;

4º Que, se está ao nosso lado, não pode comunicar-se conosco;

5º Que, por seu envoltório fluídico, não pode agir sobre a matéria inerte;

6º Que, se pode agir sobre a matéria inerte, não pode agir sobre um ser animado;

7º Que, se pode agir sobre um ser animado, não pode dirigir-lhe a mão para fazê-lo escrever;

8º Que, podendo fazê-lo escrever, não pode responder às suas perguntas e lhe transmitir o pensamento.

Quando os adversários do Espiritismo nos tiverem demonstrado que isso é impossível, através de razões tão patentes quanto aquelas pelas quais Galileu demonstrou que não é o Sol que gira em torno da Terra, então poderemos dizer que suas dúvidas são fundadas. Infelizmente, até este dia, toda a sua argumentação se reduz nestas palavras: Não creio; logo é impossível. Sem dúvida dirão que a nós cabe provar a realidade das manifestações; nós as provamos pelos fatos e pelo raciocínio; se não admitem nem uns, nem o outro, se negam o que veem, a eles cabe provar que nosso raciocínio é falso e que os fatos são impossíveis.

Em outro artigo examinaremos a teoria do Sr. Figuier. Fazemos votos para que seja de melhor qualidade que a teoria do músculo estalante de Jobert (de Lamballe).

 

Livro:  Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos - Ano III, 1860

(nº 9 - setembro de 1860)

Allan Kardec

FEB - Federação Espírita Brasileira

 

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