Esclarecedor e Esclarecimento

 

Como saber, então, se alguém está capacitado para ser esclarecedor?

Se o candidato reúne as qualificações e interesse em assumir a tarefa, com muita prudência, discernimento e diplomacia. Que requer, o ascendência moral que fará com que a abordagem do Espírito pelo esclarecedor proporcione ao enfermo as primeiras sensações de serenidade, a idéia de confiança, de que está diante de alguém que lhe fala com autoridade e de quem emanam sinceridade, conhecimento e equilíbrio.

 

Como fazer o esclarecimento do Espírito que se queixa de dores, de trevas, que se confessa em desespero ou simplesmente ignora a sua situação?

Sob o título "Socorro Espiritual", André Luiz nos conta um caso de esclarecimento que começa com o comunicante dizendo: — Estou doente, desesperado!... Ao que responde o orientador: — Sim, todos somos enfermos, mas não nos cabe perder a confiança. Somos filhos de nosso Pai Celestial que é sempre pródigo em amor. E a mesma entidade dá novo tom à conversa: — É padre?Responde habilmente o esclarecedor : —Não. Sou seu irmão. Reage a entidade, agressiva: — Mentira. Nem o conheço ... Mas completa o dirigente sua frase anterior: — Somos uma só família, `a frente de Deus. O diálogo continua, até que o enfermo rebelde começa a ceder ao tom amoroso e sincero da argumentação tranqüila do esclarecedor, prorrompendo em lágrimas. A essa altura, comenta André Luiz: " Via-se, porém, com clareza, que não eram as palavras a força que o convencia, mas sim o sentimento irradiante com que eram estruturadas". Vale observar ainda que o doutrinador evitou, apesar de provocado, revelar a sua cor religiosa para não criar constrangimentos ao comunicante.

 

 E quando ele se diz preso e algemado, tolhido em suas forças, o que está acontecendo mesmo no plano espiritual, onde ele se encontra?

É claro que ele está sob o controle das entidades espirituais dirigentes e do próprio ambiente fluído adredemente preparado para esse fim. Mas é mais uma vez André Luiz que nos socorre neste campo do esclarecimento, ao informar que esse aprisionamento de que o comunicante se queixa decorre freqüentemente da contenção cautelosa do médium. Porta-se, nesses casos, o enfermo como um doente controlado, qual se faz imprescindível, queixando-se, por isso, das cadeias que o prendem.

 

Pode-se fazer o esclarecimento do Espírito encarnado que compareça a uma sessão De desobsessão?

Pelas informações constantes do capítulo referente a evocações de pessoas vivas, em O Livro dos Médiuns, pode-se concluir ser possível falar a esse Espírito. São muitos os casos em que Espíritos encarnados foram evocados, durante o sono. E pululam outros em que Espíritos encarnados comparecem espontaneamente não apenas a reuniões mediúnicas, mas a muitos outros tipos de eventos dos dois planos. A Literatura Espírita é muito rica em narrativas sobre essas reuniões entre encarnados e desencarnados. E esse intercâmbio permanente é um dos fundamentos básicos do Espiritismo. Além disso, somos todos nós encarnados alvos de longas e insistentes esclarecimentos, durante o sono, pelos Espíritos que se interessam por nós, Como os encarnados não gozam do mesmo grau de liberdade dos desencarnados, por estarem sob à influência pesada da matéria, de volta ao corpo recordarão de um esclarecimento numa sessão de desobsessão a que eventualmente tenham comparecido nas condições mais ou menos como se recordam dos sonhos. Mas há casos de esclarecimento assim, como um narrado pelo Dr. Bezerra de Menezes no seu livro A Loucura sob Novo Prisma. Foi o de um Espírito encarnado que, ouvido numa dessas reuniões de desobsessão naquela época, recusou-se a perdoar um outro Espírito desencarnado num caso de obsessão de encarnado sobre desencarnado.

 

Como o esclarecedor pode saber se certo Espírito que incorporou no médium numa sessão é de um encarnado e não de um desencarnado?

É preciso, primeiro, muita experiência e também muita atenção do doutrinador para os detalhes da conversa do comunicante, a fim de situá-lo na sua verdadeira condição espiritual. Ora, um comunicante que só fala de personagens e de situações presentes, de locais onde vive, descrevendo cenários, hábitos, vícios e projetando fatos como se falasse de alguém que leva uma vida comum numa comunidade como um encarnado, dá para começar a desconfiar, ficar de orelha em pé. Pelo menos, nos primeiros momentos, ele pode estabelecer confusão em quem o ouve atentamente e deseja obter a sua identificação. Em sua respeitável obra No Invisível ( 2a. Parte, Cap. XII), Léon Denis conta que durante três anos consecutivos pôde o Espírito de um vivo manifestar-se, via incorporação, no grupo por ele dirigido em Tours. Durante esse tempo, não se conseguiu distingui-lo dos Espíritos desencarnados que intervinham habitualmente nas sessões. "Os pormenores mais positivos nos eram, entretanto, por ele fornecidos acerca de sua identidade". Contava detalhes de sua vida, inclusive da preguiça e da bebedeira com que se deleitava. "Tudo nele — propósitos, recordações, pesares — nos dava a firme convicção de estarmos tratando com um desencarnado". Eis que um membro do grupo tomou a si a iniciativa de pesquisar o fato e o descobriu vivendo ainda do mesmo jeito que contava nas incorporações, na região por ele mesmo indicada. "Todas as noites se deitava às primeiras horas e, desdobrado, chegava até o grupo reunido incorporando-se em um médium a quem o prendiam laços de afinidade, cuja causa se nos conservou sempre ignorada". O Livro dos Médiuns tem um capítulo inteiro tratando da evocação de Espíritos encarnados.

 

Como deve ser a argumentação do esclarecedor?

Deve utilizar uma argumentação lógica, clara, concisa, com base na Doutrina Espírita e, sobretudo, permeada de amor. Não deve criticar, nem censurar, nem julgar, nem usar de franqueza excessiva. A medida justa para isto é colocar-se o doutrinador na posição do comunicante, vivendo o seu drama e imaginando como seria o seu sofrimento.

 

Qual, então, a imagem que o esclarecedor deve ter do obsessor?

Ele deve levar em consideração que os Espíritos são seres humanos, com a única diferença que não possuem mais o corpo de carne como nós encarnados. Mas atravessaram o portal do túmulo com os mesmos vícios ou virtudes que cultivaram quando encarnados. Por isso, ao tratar com um obsessor desencarnado, deve o esclarecedor utilizar toda uma psicologia de quem está tratando com pessoas problemáticas que alimentam sentimentos conflitantes, fortes cargas de emoções desajustadas, tipo essa mesma clientela que enche os consultórios médicos e busca alternativas nas religiões, que lota os centros espíritas, a procura de alívio e cura para os seus males. Tem ainda, em idênticas situações, a enorme massa dos que se isolam e se fecham a qualquer possibilidade de mudança. Não existe uma regra mágica ou uma norma rígida para se tratar com esses Espíritos, além da linguagem amorosa, mas o bom senso está a indicar que para cada caso deve haver um tipo apropriado de diálogo capaz de produzir os resultados desejados. No livroLiberta ção, André Luiz nos fala de uma experiência com três ovóides, das quais, aumentando sua capacidade de percepção como o médico que ausculta o enfermo em coma, conseguia ouvir no íntimo delas gemidos e frases inteiras como estas: — Vingança! Vingança! Não descansarei até o fim... Esta mulher infame me pagará!... Ou então, gritos assim: — Assassina! Assassina! O doutrinador deve ser esse irmão bondoso e diligente que procura identificar os Espíritos

enfermos nos ecos que partem do seu mais profundo íntimo.

 

Como agir o esclarecedor quando surpreendido pela manifestação do seu próprio obsessor?

"Neste caso" — sugere Hermínio Miranda — "a tarefa assume implicações de natureza muito pessoal, para as quais o doutrinador tem que estar preparado". Consideramos sensata a sua orientação no sentido de que o doutrinador perseguido trate o seu obsessor com serenidade, equilíbrio e humildade. Deve procurar sensibilizá-lo de que, como encarnado, não tem a noção exata dos males que eventualmente tenha causado. Mesmo assim, espera que ele possa perdoá-lo, reconhecendo o esforço que agora empreende para se melhorar, a luta que trava contra suas imperfeições para não mais reincidir nos erros do passado. Embora limitado ainda por numerosos vícios, alimenta, porém, o sincero propósito de amar os que odiou e de trabalhar pelo progresso das vítimas da sua infeliz ignorância. Deve mostrar a importância do perdão e do arrependimento e, pelo exemplo, provar que é verdadeiro tudo o que diz ao seu comunicante. Tudo isso, com muita simplicidade e sem resvalar, sob qualquer hipótese, para a presunção ou exibição de virtudes que não possui. Por aí poderá conseguir sensibilizar o antigo desafeto, a favor do qual tem o dever de orar e fazer tudo para ajudá-lo a libertar-se da crisálida de ódio que ainda não conseguiu romper, considerando sempre a recomendação de Jesus no Evangelho de Mateus (5:44): "Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos

 

O esclarecedor é visado pelos Espíritos inferiores?

Não somente ele, como os demais integrantes da equipe mediúnica. Os desencarnados que estão sendo atendidos não raro lhe acompanham os passos para verificar o seu comportamento e se há veracidade em tudo o que fala e aconselha. Se encontram nele o exemplo, sentem-se encorajados à modificação. Não raro também lhe cobram os ensinos não praticados e se dão por contentes quando conseguem vê-lo em contradição, fazendo exatamente o contrário de tudo aquilo que a sua condição de doutrinador ou de médium exige. Por isso que Jesus admoestou os apóstolos que encontrou dormindo ao voltar da oração no Getsêmani, dizendo-lhes: "Vigiai e orai para não cairdes em tentação" ( Mt. 26:41).

 

E onde fica a assistência dos bons Espíritos?

O esclarecedor é sempre auxiliado pela ação dos bons Espíritos no esclarecimento do obsessor e do obsedado. "Um instrutor de elevada condição hierárquica substituiu Alexandre junto da médium, passando o meu orientador a inspirar diretamente o colaborador encarnado que dirigia a reunião", conta André Luiz sobre uma cena de esclarecimento. E completa adiante, na descrição: "... fixei a minha atenção na palestra que se estabeleceu entre Marinho (desencarnado), incorporado em Otávia (médium), e o esclarecedor humano, orientado intuitivamente por Alexandre (instrutor desencarnado).

 

Qual o tempo necessário para se preparar um esclarecedor?

Cremos que, como o médium, o médium esclarecedor não tem um tempo especificado para ser preparado para a sua delicada e nobre tarefa de orientar os Espíritos necessitados. O aprendizado, em Espiritismo, é permanente, e quanto mais conhecimentos e crescimento moral conquistar, o lidador, mais ele estará preparado para a tarefa que lhe compete no acervo de imenso trabalho da Casa Espírita. O que há — e isso acontece com as programações doGEPE — é mais ou menos um espaço de tempo em que ele será preparado para abraçar sua tarefa, participando dos cursos regulares e outros mais específicos, além de estágios, para se tornar trabalhador dessa ou daquela área de atendimento espiritual. É claro que em tudo isso deve-se levar em consideração o desembaraço, a dedicação e conduta moral do trabalhador para a tarefa que ele deseja abraçar. Agora, preparado mesmo o doutrinador somente estará depois de muitas reencarnações que lhe possam garantir, de fato, a condição de verdadeiro espírita.

 

Como se comportar diante dos Espíritos que rejeitam o esclarecimento?

Em tudo deve prevalecer o bom senso. O esclarecedor deixa a entidade falar, dizer a que veio, o que deseja e vai tentando conversar com ela, perguntando sem agressão, chamando o desencarnado à meditação, à compreensão, porém consciente de que nem sempre será tarefa fácil ou imediata despertar- lhe a atenção. Como há pessoas encarnadas que têm dificuldade de aceitar as coisas por múltiplas razões e que, por isso, precisam de meses ou mesmo anos para mudar suas opiniões ou abrir mão de determinados costumes e procedimentos, a mesma coisa acontece com muitos desencarnados que levaram para o além-túmulo esse caráter. Essa é uma tarefa que requer muita paciência, perseverança, além de tato e habilidade, para a condução ao bem de Espíritos quase sempre muito perversos, endurecidos, astuciosos e rebeldes até o último grau.

 

O esclarecedor deve revelar a condição espiritual do comunicante?

Essa questão de esclarecer o Espírito no primeiro encontro é um ato de invigilância e pode até contribuir para agravar o estado de perturbação e desespero da entidade. Dizer-se a alguém que ele já morreu e esperar que esse alguém receba essa informação com serenidade não fala ao bom senso. Pense como um encarnado receberia a informação seca e dura do médico de que ele é portador de um câncer ou de qualquer outra doença grave e que está em fase terminal! Os Espíritos também são gente e necessitam igualmente de todas essas técnicas da psicologia humana para receber determinadas informações a seu respeito e a respeito daquilo que lhes interessa diretamente, que faz parte do seu mundo íntimo, da sua cultura. Algumas verdades devem ser reveladas em doses e com muita habilidade.

 

Quem deve falar mais, esclarecedor ou comunicante?

Muitas vezes, na ânsia de ver as entidades esclarecidas e renovadas, o se esclarecedor perde numa excessiva e cansativa cantilena, quase sempre improdutiva e exasperante até. É recomendável dispensar sempre os discursos durante o esclarecedor, de modo a permitir que o comunicante possa expressar suas dificuldades, em razão das quais o esclarecedor traçará a linha do diálogo de forma objetiva e esclarecedora. Para tudo existe um meio termo, nem tanto à terra, nem tanto ao mar – diz a filosofia popular.

 

O esclarecedor deve fazer o esclarecimento de olhos fechados?

Não. O esclarecedor deve estar em permanente estado de vigilância, não só quanto aos seus próprios sentimentos e pensamentos, mas também quanto às suas suposições e intuições; quanto ao que contém nas entrelinhas do que diz o manifestante e sobretudo quanto ao que acontece à sua volta e com os demais componentes do grupo. Deve, portanto, estar olhando para dentro e para fora, para enxergar também a sua própria conduta não apenas durante o trabalho, mas no seu proceder diário. É sugestiva a resposta de Bartimeu, o Cego de Jericó, quando Jesus lhe pergunta: — Que queres que eu te faça? E ele responde: Que eu veja (Marcos, 10:51). Atento a tudo, para comandar com segurança a sessão de desobsessão, deve ser uma das principais preocupações do esclarecedor

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Até que ponto os Espíritos rebeldes respeitam o esclarecedor?

Pela firmeza de sua postura, a confiança na colaboração dos dirigentes espirituais e, como já dissemos noutras oportunidades, pelo seu ascendente moral real e não aparente. Dependendo da seriedade da reunião, os dirigentes invisíveis agem com toda presteza para coibir qualquer perturbação ou ameaça aos trabalhos. Conta-nos André Luiz que numa dessas reuniões de socorro espiritual, um dos necessitados que tomara o médium sob forte excitação quis agredir os componentes da mesa em tarefa de auxílio fraternal. "Antes, porém, que pusesse em prática o sinistro desígnio, vi que os técnicos de nosso plano trabalhavam ativos na composição de uma forma sem vida própria, que trouxeram imediatamente, encostando-a no provável agressor. Era um esqueleto de terrível aspecto, que ele contemplou de alto a baixo, pondo-se a tremer, humilhado, esquecendo o triste propósito de ferir

benfeitores".

 

E quando os Espíritos lançam ameaças e desafios ao esclarecedor?

Não aceitar a intimidação, pois sofremos apenas o que estiver em nossos compromissos espirituais. Isso não significa que devamos reagir à provocação no mesmo tom. Não deve o doutrinador ridicularizar qualquer bravata do obsessor, nem desafiar a ameaça, nem responder à ironia com morfa, nem se intimidar. A prudência é a postura indicada. A nós, muitas vezes, eles poderiam vencer em razão das nossas próprias limitações morais, mas a proteção da equipe espiritual, como já ficou provado por André Luiz, nos dá o amparo e ascendência momentânea, considerando-se o elevado objetivo da reunião.

 

Se o obsessor passa a acusar o esclarecedor, a apontar suas falhas?

Como Espírito imperfeito, a exemplo dos encarnados, ele procura explorar também as nossas imperfeições, os nossos defeitos. E na condição de desencarnado, ele nos observa com muito mais profundidade, podendo ter acesso inclusive às nossas falhas atuais e do nosso passado. Devemos manter a posição de humildade, se possível mostrando-lhe que estamos em luta contra as nossas imperfeições e que merecemos todos nós, por esse tipo de esforço, inclusive ele se também desejar melhorar-se, estímulo e respeito. Com paciência e sinceridade, ele terminará compreendendo. Jamais, porém, devemos exibir virtudes que não temos.

 

E quando o Espírito põe-se naquela gritaria, sem querer ouvir e mais para confundir o esclarecedor?

A gritaria e a confusão não conduzem a nada, a não ser ao clima de perturbação da reunião. Muitas vezes, é mais uma manobra do obsessor ardiloso para desestabilizar emocionalmente o esclarecedor e o restante do grupo, na ânsia de impedir o êxito da desobsessão. Se não houver condições de diálogo, é preferível que o dirigente da sessão peça o concurso dos bons Espíritos para a retirada do irmão perturbador, até que ele possa voltar noutra oportunidade para uma nova tentativa de esclarecimento. Mas nunca devemos tentar vencê-lo na discussão.

 

Como agir quando o comunicante propõe acordo, pacto, barganha, etc.?

Simplesmente não aceitar. Mas faça isso sem deixar transparecer qualquer reação de censura ou indignação. Não tente ludibriá-lo com propostas, promessas, com objetivo de levar vantagem sobre o irmão astuto. Use sempre a sinceridade de propósitos, tentando persuadi-lo de que a única proposta que atende aos interesses reais de ambas as partes é aquela do Divino Mestre que nos aconselha o perdão aos inimigos e o amai-vos uns aos outros.

 

Como identificar se o Espírito está aceitando o esclarecimento?

Quando ele passa a ouvir, saindo do campo da rejeição pura e simples para o tom de arrependimento que o leva muitas vezes às lágrimas, quando não a pranto convulsivo. Nesse momento, o comunicante rebelde começa a ser alcançado no seu coração. Há outros Espíritos que denotam essa tendência de aceitação do esclarecimento entregando-se a um silêncio reflexivo entremeado de algumas perguntas refletindo o desejo de auxílio para a renovação. A essa altura, cabe ao doutrinador investir com todas as vibrações de amor fraternal, reforçando suas palavras de estímulo ao irmão que começa a quebrar as algemas do jugo infeliz.

 

E se a entidade adotar o silêncio total, recusando-se a falar?

O esclarecedor insiste amorosamente, utilizando algumas técnicas da própria psicologia social, como estímulo ao diálogo, ao mesmo tempo em que analisa pelas reações físicas do médium se não se trata de alguma entidade que deixou o casulo físico na condição de mudo, transportando para a erraticidade os condicionamentos do equipamento da fala. Se não fala por decisão própria de não querer ouvir, para não ceder à possibilidade de mudança de sua atitude mental pelo diálogo esclarecedor, é aconselhável que o doutrinador a deixe à vontade, entregue ao socorro da equipe espiritual até que ela possa retornar com predisposições renovadas.

 

E como identificar se o Espírito é de um mudo?

O Espírito desencarnado difere do encarnado apenas pela falta do corpo físico, mas é o mesmo, com os mesmos sentimentos, as mesmas sensações, os mesmos defeitos e virtudes. O Espírito que sofreu a prova da mudez na Terra, se não é alguém esclarecido, vai continuar se expressando por gestos, trejeitos, sinais, ou seja, com os mesmos recursos de que se utilizou como encarnado. Muitas vezes é levado a essas reuniões mediúnicas para receber o esclarecimento necessário que o libertará desses condicionamentos temporários. E nessa reunião, nós o identificaremos por esses sinais, pelo esforço que emprega para se fazer entendido.

 

Como identificar o sexo do Espírito comunicante?

A identificação dos Espíritos não é uma coisa absolutamente necessária nas reuniões mediúnicas, porque a prática da caridade dispensa todas essas preocupações de ordem secundária. Mas, para facilitar a comunicação e o diálogo, o esclarecedor basta ficar atento à linguagem do comunicante que logo o reconhecerá se se trata de homem ou mulher, de jovem ou criança ou de velho. O Espírito que toma o instrumento mediúnico queixando-se, por exemplo, de que está "cansada" , só pode ser alguém do sexo feminino. Ao que se proclama "revoltado" só podemos atribuir ao sexo masculino. E assim, com um pouco mais de atenção, o dirigente vai recolhendo do próprio Espírito um conjunto de informações que permitam a sua identificação quanto ao sexo e a outros aspectos. A vivência do trabalho de doutrinação vai habilitando o doutrinador para tudo isso.

 

O que fazer o esclarecedor quando a entidade parte para gritar impropérios?

Aconselhar o médium a controlar a comunicação, pois compete ao médium educado no Evangelho e moralizado conduzir civilizadamente o

comunicante, na conformidade que indique o bom-senso. Conta-nos André Luiz como Celina, uma médium disciplinada, comporta-se diante de uma situação dessas. A entidade "tentava gritar impropérios, mas debalde. A médium era um instrumento passivo no exterior, entretanto, nas profundezas do ser, mostrava as qualidade morais positivas que lhe eram conquista inalienável, impedindo aquele irmão de qualquer manifestação menos digna".

 

Como orientar o Espírito que se queixa de dores, de trevas, que se confessa em desespero ou simplesmente ignora a sua situação?

Sob o título "Socorro Espiritual", André Luiz nos conta um caso de esclarecimento que começa com o comunicante dizendo: — Estou doente, desesperado!... Ao que responde o orientador: — Sim, todos somos enfermos, mas não nos cabe perder a confiança. Somos filhos de nosso Pai Celestial que é sempre pródigo em amor. E a mesma entidade dá novo tom à conversa: — É padre?Responde habilmente o esclarecedor: —Não. Sou seu irmão. Reage a entidade, agressiva: — Mentira. Nem o conheço ... Mas completa o dirigente sua frase anterior: — Somos uma só família, `a frente de Deus. O diálogo continua, até que o enfermo rebelde começa a ceder ao tom amoroso e sincero da argumentação tranqüila do doutrinador, prorrompendo em lágrimas. A essa altura, comenta André Luiz: " Via-se, porém, com clareza, que não eram as palavras a força que o convencia, mas sim o sentimento irradiante com que eram estruturadas". Vale observar ainda que o doutrinador evitou, apesar de provocado, revelar a sua cor religiosa para não criar constrangimentos ao comunicante.

 

O esclarecedor deve participar como esclarecedor de manifestações

fora do Centro Espírita?

Excluindo-se, é claro, as situações de emergência que poderão levar eventualmente um esclarecedor a ter que dialogar com um Espírito que se apossou de um médium enfermo ou invigilante, em local impróprio e horário inoportuno, o esclarecedor deve se resguardar de quaisquer envolvimentos com manifestações dessa ordem fora do ambiente próprio da Casa Espírita. As mesmas orientações que os Espíritos responsáveis dão aos médiuns valem para o esclarecedor, que detém sem dúvida maior fatia de responsabilidade nesses serviços de socorro espiritual, porque é ele quem dá o tom na orientação e condução dos trabalhos. Não deve, portanto, envolver-se com qualquer atividade de coordenação mediúnica que não tenha o respaldo de uma instituição responsável, a menos que se veja diante de uma emergência como já foi dito.

 

O esclarecedor se destina exclusivamente aos obsessores e obsidiados?

Alexandre, um dos mentores citados por André Luiz, ensina numa belíssima página sobre doutrinação, referindo-se à participação dos colaboradores terrenos nos programas de assistência espiritual: "...valemo-nos do concurso de médiuns e doutrinadores humanos, não só para facilitar a solução desejada, senão também para proporcionar ensinamentos vivos aos companheiros envolvidos na carne, despertando-lhes o coração para a espiritualidade". E arremata com muita propriedade: "Ajudando as entidades em desequilíbrio, ajudarão a si mesmos; doutrinando, acabarão igualmente

esclarecidos".

 

Como agir quando o médium passa mal e não colabora para o desligamento da entidade comunicante?

O esclarecedor deve manter toda a tranqüilidade e confiar plenamente na direção espiritual dos trabalhos. E o médium deve estar devidamente orientado que não deve ceder ao descontrole da entidade comunicante, dominando qualquer sugestão principalmente de medo, de modo a não criar resistência que provocam 'ingurgitamentos" energéticos e mal-estar. A dificuldade surge também quando o médium não trabalha, pela sua elevação moral, as defesas energéticas próprias, absorvendo a pesada carga fluídica do obsessor. Quando o médium está preparado, acontece como neste caso narrado por André Luiz: "O sofredor projetava de si estiletes de treva, que se fundiam na luz com que Celina-alma o rodeava, dedicada". Todavia, não deverá também o médium entregar-se totalmente ao envolvimento, a ponto de permitir a exacerbação nervosa, debruçar-se sobre a mesa ou assumir comportamentos equivalentes de deseducação mediúnica.

 

E quando o médium sente a entidade, mas não completa o transe, ou seja, bloqueia a comunicação, como agir o esclarecedor?

Cabe ao esclarecedor orientar o sensitivo para não resistir à onda mental que o alcança, ainda que acompanhada de fortes emoções e sensações desconfortantes. Ela procede dos Espíritos e deverá ser canalizada sem bloqueios, porém com atenção, equilíbrio e disciplina. Com a prática e a dedicação, o sensitivo vai percebendo com facilidade o momento em que se processa a adesão do comunicante ao seu campo psíquico, isto é, o instante em que se dá a ligação efetiva com o comunicante, consolidando a sintonia. Vejamos como André Luiz resume esse intrincado mecanismo, ao descrever uma cena de incorporação: "Qual se fora atraído por vigoroso ímã, o sofredor arrojou-se sobre a organização física da médium, colando-se a ela instintivamente". É claro que André Luiz fala aqui de um médium já experiente e devidamente habilitado. Agora, "quando a educação mediúnica é deficiente ou viciosa, o intercâmbio é dificultado, faltando liberdade e segurança; o médium reage à exteriorização perispirítica, dificulta o desligamento e quase sempre intervém na comunicação, truncando-a". Isto é o que nos informa a coleção Mediunidade — Estudos e Cursos, do Centro Espírita Allan Kardec de Campinas - SP.

 

Além das preces de abertura e encerramento, é conveniente o esclarecedor fazer outras preces?

O esclarecedor pode recorrer à prece a qualquer hora da reunião, mas apenas quando necessário, para que o ambiente da desobsessão não se transforme naquelas cansativas ladainhas de rogativas e recomendações repetitivas, que mais viciam e condicionam do que ajudam. O ambiente da reunião mediúnica deve ser de profundo silêncio, e as preces, quando necessárias (para serem proveitosas) devem ser feitas em voz alta ou silenciosamente para contornar eventuais dificuldades no atendimento de algum Espírito em situação de grande sofrimento e revolta. A força da corrente de pensamentos do grupo em prece pode funcionar como sedativo para certas entidades, bem como motivar a equipe para um envolvimento cada vez mais intenso com os trabalhos de socorro espiritual no ambiente. O esclarecedor pode ainda, desde que isso não se revele uma coisa ociosa, pedir ao Espírito em desespero para que ore juntamente com ele e todo o grupo para sentir-se mais aliviado. Agora, as orações mecanizadas, feitas aleatoriamente, são ociosas, não surtem o menor efeito, quando não raro até ajudam na irritação e agravamento do estado de perturbação do comunicante, como podem, também, interferir negativamente na concentração da equipe.

 

O esclarecedor precisa tocar nos médiuns, forçar a comunicação ou repreendê-los?

A orientação dos Espíritos é no sentido de que o dirigente somente toque no médium em transe quando necessário. Pelo menos, esta é a orientação de André Luiz, que recomenda ainda muito tato psicológico entre as providências necessárias para manter o equilíbrio da reunião. O termo repreensão não é adequado para uma reunião de caráter fraternal, mas cabe ao doutrinador ou dirigente, se julgar conveniente, abordar qualquer um dos componentes, desde que se trate do real interesse dos trabalhos. Além disso, em O Livro dos Médiuns, a orientação explícita é de que, em reuniões sérias, deve partir do médium a iniciativa de solicitar um exame crítico de suas comunicações para escapar aos perigos da fascinação. Quanto a forçar o médium a produzir na reunião, isso é despreparo para a delicada tarefa de orientador mediúnico. Tudo, na atividade mediúnica, deve se processar sem a indução, como forma de evitar a mistificação e a fraude. Pode e deve, entretanto, o esclarecedor, quando o médium revelar dificuldades no intercâmbio por problemas que não lhe sejam comuns, procurar orientá-lo sem prejuízo dos trabalhos. Isso é tarefa do esclarecedor no seu relacionamento com o grupo.

 

O esclarecedor deve fazer a aplicação de passes ou orientar que o seu auxiliar ou qualquer outro membro do grupo o faça, durante a reunião mediúnica?

Que os médiuns saiam da sua posição de concentração, de recolhimento, para aplicar passes nos outros companheiros, isso não tem sentido. Agora, que o dirigente faça a aplicação ou determine que o seu auxiliar o faça, desde que não transforme essa prática em rotina, não conhecemos qualquer orientação contrária, sobretudo se as circunstâncias indicarem essa necessidade, como recurso destinado a desanuviar a situação de algum dos componentes envolvido por inesperado mal-estar. Se for algo mais grave que denote inclusive problema físico repentino, o médium deve ser retirado imediatamente do grupo e encaminhado ao atendimento adequado, inclusive médico-hospitalar, se persistir o mal-estar. Sendo problema de obsessão, Ivonne Pereira, em Recordações da Mediunidade, aconselha a suspensão temporária de qualquer labor mediúnico, para tratamento espiritual específico.

 

Como o esclarecedor deve encaminhar o esclarecimento aos Espíritos suicidas?

O sofrimento desses irmãos é tão intenso, eles se apresentam geralmente tão enlouquecidos pelo infortúnio, tão dementados, que o orientador não tem como lhes oferecer algum esclarecimento num primeiro contato. Diz Suely Caldas Schubert que esses irmãos "não necessitam tanto de doutrinação quanto de consolo. Cabe ao esclarecedor socorrê-los, aliviando-lhes os sofrimentos através do passe". Vejam um dos momentos da reunião de desobsessão em que a aplicação do passe é recomendada, mas deve ser feita pelo próprio dirigente ou seu auxiliar. O esclarecimento poderá ser ministrado em reuniões sucessivas, à medida também em que esses Espíritos vão sendo orientados pelos benfeitores no plano espiritual onde se encontram. Todo o grupo deve vibrar com muito amor por esses irmãos, direcionando- lhes os pensamentos de bondade e de otimismo, para os ajudar na reabilitação.

 

Como o esclarecedor atender aos impositivos da direção espiritual da reunião, se ele não é portador de nenhum recurso mediúnico?

E quem pode afirmar isso, que o dirigente de uma reunião mediúnica não disponha dos canais de comunicação direta com os dirigentes espirituais, mesmo acreditando-se totalmente nulo em matéria de mediunidade? A vivência espírita nos mostra que essas pessoas que têm sobre os ombros tão delicadas tarefas são geralmente mais médiuns do que muitas outras que exibem qualidades mediúnicas ostensivas. O que pesa nesses compromissos são o conhecimento e as qualidades morais do esclarecedor, os sentimentos de amor e a disciplina no desempenho dos seus deveres, que o colocam em perfeita sintonia com os dirigentes espirituais. Essas qualidades desenvolvem o campo da intuição, possibilitando-lhe registrar com muita precisão os pensamentos e orientações dos condutores e demais participantes dos trabalhos no plano espiritual.

 

Qual deve ser a postura do esclarecedor diante de manifestações de risos, gracejos, lorotas, achaques, piadas ou outras situações de hilaridade provocadas por Espíritos brincalhões e galhofeiros nas sessões mediúnicas?

No livro Devassando o Invisível, conta a médium Ivonne A. Pereira que certa feita, em desdobramento, ela se viu diante de uma falange de entidades dessa natureza, que obsidiavam uma sua parente de 10 anos. Ao ver as palhaçadas, gestos e carantonhas dos infelizes, teve impulso de rir, no que foi imediatamente contida por seu mentor Charles, que a admoestou: — Rir-se é aplaudir, louvar seus atos e, portanto, afinar com eles... Haveria troca de vibrações... e de qualquer forma se estabeleceria o malefício... Será necessário ao médium como ao Espírito ( ela estava desdobrada), diante deles o domínio de toda e qualquer impressão e emoção, um equilíbrio isolante traduza superioridade moral. E acrescenta Roque Jacinto, em esclarecedor: "Por maior o ridículo da posição ou da situação, da expressão ou do dito jocoso daqueles que nos procurem no intercâmbio mediúnico, não devemos acolhê-los como convites perturbadores, porque corremos o risco de desbaratar as energias concentradas para o atendimento caritativo".

 

59. Quando o dirigente esclarecedor encerra a reunião de desobsessão no Plano Físico significa também que os trabalhos estejam encerrados no Plano Espiritual?

Nem sempre, porque, apesar de sintonizado conosco na disciplina benéfica, o Plano Espiritual atende a nuanças que muitas vezes nem desconfiamos. Isso não significa, porém, que as manifestações mediúnicas devam continuar após o encerramento da sessão no nosso plano. A este propósito, J. Raul Teixeira nos ensina, em Correnteza de Luz, que "durante os labores desobsessivos, os Seareiros do Bem costumam levar para os locais de trabalho aparatos fluídicos os mais variados para o atendimento de uma infinidade de problemas apresentados por desencarnados em tormenta. Muitos sofredores invisíveis têm necessidade de permanecer no mesmo ambiente das reuniões, após a lide formal, sendo inúmeras vezes atendidos de modo mais direto e profundo pelos componentes da equipe quando desdobrados pelo sono comum". E analisa, então, Raul Teixeira: "Razão temos aí para que os lidadores das reuniões de desobsessão não se imiscuam em agitações e folguedos desnecessários, depois das tarefas, procurando manter seu íntimo clima de alegria e de paz até entregar-se ao repouso". Estas são o tipo da informação que o doutrinador deve lembrar aos componentes do grupo sempre que estiver encerrando uma reunião de desobsessão. É bom insistir no esclarecimento de que o médium deve estar sempre preparado para o socorro espiritual, a toda hora pode ser convocado a servir pelas equipes invisíveis que agem em nome da Providência Divina.

 

Há alguma vantagem para a eficácia dos trabalhos no fato de ser o esclarecedor também vidente?

Não é bem vantagem o termo. Há, possivelmente, uma maior confiança de parte do doutrinador e também do grupo quanto à realidade do fenômeno mediúnico. Porém, como cada caso é um caso, aquilo que, em determinadas circunstâncias, possa ser encarado como fator aparentemente positivo em mediunidade, poderá ser, na realidade, fator negativo. Isso porque a entidade que o esclarecedor esteja, eventualmente, vendo naquele momento poderá não ser aquela que está, de fato, se comunicando. Também, o vidente não vê a hora que quer nem o que quer ver. Por outro lado, a entidade poderá enganá-lo, confundindo sua vidência com o emprego da ideoplastia e outros recursos incontáveis de que os Espíritos embusteiros dispõem para mistificar, disfarçando a própria aparência. Essa vantagem que se presume, portanto, é muito relativa e poderá vir a ser até uma tremenda desvantagem, se o doutrinador vidente não aliar às suas precauções outras cautelas que a experiência recomenda para o delicado intercâmbio entre os dois planos. O Curso de Estudos Sobre Reuniões Mediúnicas, organizado pelo Centro Espírita Allan Kardec, de Campinas/SP, considera a vidência na doutrinação como um bom instrumento para fornecer ao doutrinador informações e detalhes que podem ajudar no seu trabalho. São necessárias, porém, as devidas cautelas que a própria Doutrina Espírita nos recomenda tanto.

 

Há alguma vantagem para a eficácia dos trabalhos no fato de ser o esclarecedor também vidente?

Não é bem vantagem o termo. Há, possivelmente, uma maior confiança de parte do esclarecedor e também do grupo quanto à realidade do fenômeno mediúnico. Porém, como cada caso é um caso, aquilo que, em determinadas circunstâncias, possa ser encarado como fator aparentemente positivo em mediunidade, poderá ser, na realidade, fator negativo. Isso porque a entidade que o doutrinador esteja, eventualmente, vendo naquele momento poderá não ser aquela que está, de fato, se comunicando. Também, o vidente não vê a hora que quer nem o que quer ver. Por outro lado, a entidade poderá enganá-lo, confundindo sua vidência com o emprego da ideoplastia e outros recursos incontáveis de que os Espíritos embusteiros dispõem para mistificar, disfarçando a própria aparência. Essa vantagem que se presume, portanto, é muito relativa e poderá vir a ser até uma tremenda desvantagem, se o esclarecedor vidente não aliar às suas precauções outras cautelas que a experiência recomenda para o delicado intercâmbio entre os dois planos. O Curso de Estudos Sobre Reuniões Mediúnicas, organizado pelo Centro Espírita Allan Kardec, de Campinas/SP, considera a vidência na doutrinação como um bom instrumento para fornecer ao esclarecedor informações e detalhes que podem ajudar no seu trabalho. São necessárias, porém, as devidas cautelas que a própria Doutrina Espírita nos recomenda tanto.

 

Como, então, o esclarecedor pode perceber, por exemplo, um caso de mistificação no fenômeno mediúnico?

O Espírito mistificador, ou seja, aquele que se diz ser o que não é, com o objetivo determinado de enganar, fazendo-se passar por entidades, nomes respeitáveis, que estão muito acima da sua condição espiritual, pode ser detectado e desmascarado pelo próprio conteúdo de sua conversa. Não se pega um mentiroso facilmente na mentira pelas contradições, a insegurança e o tom de leviandade no que diz? Assim também dá-se com os desencarnados. Ao se defrontar com essas situações, o doutrinador deve inclusive estimular a conversa, analisando psicologicamente o caráter do comunicante, para ver se o que ele fala combina bem com o que ele afirma ser. O dirigente deve ter cuidado com os elogios, exaltações de cunho pessoal que esse tipo de comunicante costuma lançar ao orientador e demais componentes do grupo de encarnados, como estratégia para alcançar o seu intento. Cabe ao doutrinador, ao perceber que se trata de mistificação, chamar o Espírito a responsabilidade, fazendo-o entender, com enérgica serenidade, que ele é quem está tentando enganar-se, e convidá-lo a modificar-se. É bom que o dirigente se conscientize de que é imprevisível a engenhosidade do mistificador.

 

Como o esclarecedor distinguir mistificação de fraude?

Mistificação é a fraude do Espírito comunicante. Quer dizer, o Espírito desencarnado é quem engana, quem blefa. Já a fraude é de iniciativa do médium, que resolve enganar e o faz conscientemente", como nos informa M. B. Tamassia em Você e aMediunidade. Fala-se também da fraude inconsciente, aquela que o médium praticaria sem o saber, em estado sonambúlico. No caso da fraude consciente, há a intenção deliberada de ludibriar. De qualquer forma, deve o dirigente estar atento e procurar por todos os meios evitá-la, porque ela traz grandes prejuízos para a Doutrina Espírita.

 

E nos casos de animismo, como o esclarecedor deve se comportar?

No animismo, é a personalidade do médium que se manifesta "com ou no lugar do Espírito", segundo também Tamassia. No primeiro caso, o médium influencia com seus pensamentos na comunicação do Espírito. No segundo, o médium, em transe anímico, dá, inconscientemente,

 

Mas como o esclarecedor pode diferenciar de uma forma bem prática o fenômeno anímico do mediúnico, numa sessão espírita?

No livro Palavras de Luz, o médium Divaldo Pereira Franco dá a seguinte resposta: "O esclarecedor pode descobrir quando ocorre um ou outro fenômeno, se conviver com o médium. Todos temos fixações, vícios de linguagem. Havendo, no fenômeno mediúnico, repetições dos vícios de linguagem, e os modismos fazendo-se exaustivos, o fenômeno é mais anímico do que mediúnico. Quando, no fenômeno, ocorrem idéias que não são habituais ao médium, encadeadas, sem a contribuição do raciocínio, chegando prontas e enviadas em boa embalagem, o fenômeno é mediúnico porque não foi resultado de uma elucubração, de um trabalho da personalidade do sensitivo". Agora, nem sempre podemos definir com exatidão quando o fenômeno está sendo coadjuvado por Espíritos, valendo ressaltar que cabe ao próprio médium, através do estudo e da experiência, auto avaliar-se não somente quanto a esse aspecto do animismo, mas igualmente quanto a todos os demais fatores que concorrem na delicada tessitura dos fenômenos espíritas.

 

Como avaliar médiuns repetitivos, cujas comunicações, ao longo dessas sessões, se revelam geralmente improdutivas?

Para Divaldo Franco, eles estão sendo vítimas de fenômenos anímicos ou de variações da própria mediunidade. E aconselha: "O médium psicofônico que durante certo período não realize maiores progressos, deve passar a controlar suas manifestações e a colaborar como médium da caridade, de socorro pela prece, ajudando mentalmente aos que estão exercendo a faculdade ativa". E vejam o fecho desse raciocínio: "A sessão propriamente dita é resultado do grupo de servidores passivos e ativos. Pessoas frias mediunicamente para colaborarem na realização do fenômeno devem contribuir com sua vibração mental".

 

O esclarecedor pode ser médium ostensivo?

"Todos os componentes da equipe assumirão funções específicas", eis o que recomenda o Espírito André Luiz, no livroDesobsessão". Também, no prefácio de Grilhões Partidos, o Espírito Manoel Philomeno de Miranda define o perfil de uma equipe mediúnica chamando a atenção para o campo de ação específico de médiuns e doutrinadores. Mas não há, contudo, nenhuma recomendação indicando essa posição como proibição absoluta, até mesmo porque em Doutrina Espírita a razão, a lógica e o bom senso são da essência dos seus ensinamentos. É claro que cada pedra deve ter o seu lugar certo na construção. E na equipe mediúnica, cada componente participa do trabalho com o instrumento que lhe é peculiar. Isso não significa dizer que a necessidade não possa alterar a posição de determinados componentes, para atender ao objetivo maior da sessão, que é o socorro espiritual. Conta-nos a grande médium Yvonne Pereira, falando de suas próprias experiências com desobsessões em Recordações da

Mediunidade: "Lembramo-nos aqui de um desses obsessores com o qual travamos conhecimento durante certos trabalhos para curas de obsessão, realizados na antiga Casa Espírita da cidade de Juiz de Fora, no Estado de Minas Gerais, o qual dizia, quando, presidindo nós as sessões, o exortávamos (o grifo é proposital para mostrar que a médium estava não só dirigindo a sessão como dialogando com a entidade, o que significa dizer que estava doutrinando) a abandonar a infeliz atitude de perseguidor do próximo, usando então expressões quase integralmente idênticas às aqui lembradas". E transcreve todo o diálogo, por sinal o mais digno de um esclarecedor consciente do seu papel, que manteve com a entidade. Fala, em seguida, sobre a transformação desse Espírito vingador e arremata: "A instrução doutrinária, o exemplo, a paciência e o amor são, portanto, fatores indispensáveis ao bom êxito dos trabalhos de curas de obsessão". E nós aqui argumentamos: na falta de esclarecedores preparados, não há, por exemplo, como um médium experimentado deixar de assumir a direção do grupo para a realização dos trabalhos. Também, numa emergência como negar atendimento aos necessitados alegando-se a falta de doutrinadores, se estiverem presentes médiuns controlados em condições de dialogar com as entidades sem perigo de envolvimento emocional? O Projeto Manoel P. de Miranda - Reuniões Mediúnicas - orienta no final do capítulo que trata sobre essa questão que "havendo necessidades de serviço, os Guias Espirituais podem modificar o campo de sintonia de um médium de tal modo que ele passe a ser um doutrinador". Argumenta, porém, assumindo a responsabilidade da orientação, que se tal fato acontecer, "dar-se-á de modo permanente e duradouro e, nesses casos, a pessoa mudará efetivamente de função; nunca, porém, exercendo ambas simultaneamente". A verdade é que os Espíritos não se preocupam com esses detalhes de que o doutrinador, aquele que dialoga com os obsessores e os aconselha a renunciarem ao mal, não possa ser necessariamente um médium. O item 5 da questão 254 de O Livro dos Médiuns contém a seguinte pergunta: "Não se pode combater a influência dos maus Espíritos moralizando-os?" Resposta: "Sim, é o que não se faz e o que não é preciso negligenciar em fazê-lo; porque, freqüentemente, é uma tarefa que vos é dada e que deveis cumprir caridosa e religiosamente." (O grifo nosso é para chamar a atenção de que a resposta se dirige a todos nós indistintamente, médiuns e não médiuns, por ser um dever de caridade). E arremata: "Pelos sábios conselhos pode-se induzi-los ao arrependimento e apressar-lhes o adiantamento".

 

E quanto aos Espíritos que se apresentem falando línguas diferentes, de que o esclarecedor não tenha qualquer conhecimento, como então encarar o comunicante?

Numa comunicação assinada conjuntamente pelos Espíritos Erasto e Timóteo, em O Livro dos Médiuns, tem-se a seguinte explicação sobre a linguagem dos Espíritos: "... Com efeito, nos comunicamos com os próprios Espíritos encarnados, como com os Espíritos propriamente ditos, unicamente pela irradiação do nosso pensamento. Nossos pensamentos não têm necessidade das vestes da palavra para serem compreendidos pelos Espíritos". Mas também nós sabemos que logo que desencarnam, os Espíritos não se libertam da linguagem articulada, como também dos gestos e expressões tais como cultivavam na Terra. Os hábitos e costumes dos grupos determinam a sua reunião em famílias e núcleos no Mundo Espiritual, onde civilizações inteiras continuam na marcha evolutiva. Por isso, a preferência dos Espíritos errantes, ainda apegados à crosta terrestre, por aglomerações afins em cultura, língua e nacionalidade. Assim como acontece aqui no Mundo Material, nessa condições, a comunicação se torna mais fácil. Com o tempo, à medida que passam a faixas vibratórias menos densas, a telepatia vai sendo empregada com mais constância, até atingir um estádio mais elevado de comunicação, ou seja, o nível das idéias, uma vez que a linguagem real do Espírito é a do pensamento. Por isso, enquanto não estiverem ainda libertos desses condicionamentos, os Espíritos podem se manifestar nas sessões mediúnicas falando a língua que levaram do país ou região da Terra onde tiveram suas experiências. Se eles conseguem se comunicar em suas línguas, é que há na reunião médiuns poliglotas que têm a faculdade de falar ou de escrever em línguas que lhes são estranhas — muitos raros, aliás. Cabe ao doutrinador, se também não conhece a língua em que o Espírito se comunica, limitar-se a ouvir e acompanhar a mensagem para avaliações posteriores. Se conhece e sabe que ela está sendo transmitida corretamente, deve registrar o comunicado e dispensar a presença da entidade, sugerindo-lhe que o pensamento é a linguagem comum a todos e que ela procure, numa próxima oportunidade, comunicar-se na forma acessível da nossa linguagem, para possibilitar o diálogo franco. Se o médium faz apenas aquele arranjo gutural, se pronuncia termos ininteligíveis, frases entrecortadas sem nexo, pensamentos truncados, é aconselhável mais cautela ainda. De qualquer forma, tenta-se, de boa vontade, esclarecer as coisas. Mas na insistência da mensagem indecifrável, o melhor que se faz é despachar o Espírito e passar a examinar o fenômeno com mais atenção, como também o médium. Se for realmente um Espírito que tenha, de fato, necessidade de comunicar-se, ele vai encontrar os meios mais eficazes e menos complicados.

 

Como tratar, então, os pretos-velhos, caboclos e índios que se apresentam nas sessões espíritas, com aquele linguajar tradicional?

Divaldo Pereira Franco é muito objetivo, ao examinar o assunto emPalavras de Luz: "O preto- velho de hoje pode ter sido o intelectual de ontem. Mas o índio de agora não há de ter sido o homem sábio do passado. O homem culto que exerceu mal o conhecimento, pode vir na área do analfabetismo para desenvolver outros sentimentos, ou na da escravidão para santificar o amor." E é mais claro ainda: "Se o preto-velho tem conhecimento, não é necessário manter aquela postura que lhe foi uma necessidade temporária. Se vem falando um português errado, torna-se um prejuízo porque nos ajuda a deformar a instrução, quando nos deveria auxiliar a melhorá-la". Divaldo diz-se inclusive testemunha de comunicações desse tipo em que se percebe mais atavismo do que autenticidade. Outros autores como Carlos Imbassahy, analisando o mesmo problema em Quem Pergunta Quer Saber acha que a pureza do Espiritismo "não está nesses preconceitos e sim no conteúdo filosófico-doutrinário que encerre", para concluir que "se quisermos conservar a autenticidade do Espírito, temos que aceitá-lo como é e não como queremos que o seja". E fecha seu raciocínio com esta frase bem direta: "Um verdadeiro espírita não se preocupa com este problema: sabe que o Espírito pode falar da forma que lhe aprouver. Eis tudo." A questão 223 de O Livro dos Médiuns, no seu item 15, é muito clara a respeito desse mecanismo da comunicação: "O Espírito errante, em se dirigindo ao Espírito encarnado do médium não lhe fala nem Francês, nem Inglês, mas a língua Universal que é o Pensamento; para traduzir as suas idéias em uma linguagemarticulada,transm issível, toma suas palavras novo vocabulário do médium" (os grifos são nossos).

 

Como atender os Espíritos que se apresentam nas sessões como crianças, como se estivessem desamparadas chorando e chamando pela mãe, com a mesma linguagem, idênticas aflições e preocupações comuns às dos seres da sua idade, com os quais nos defrontamos a toda hora aqui mesmo encarnados na Terra?

Vamos seguir aqui, num primeiro enfoque, a orientação de Herculano Pires, em Obsessão, O Passe, O Esclarecimento: "Nos casos de crianças desamparadas que chamam pela mãe o quadro é tocante, emocionando as pessoas sensíveis. Mas a verdade é que essas crianças estão assistidas". E aqui fazemos um rápido parêntesis para lembrar que Emmanuel Swedenborg, um dos precursores do Espiritismo, já revelava sobre as crianças no Mundo Espiritual: "As crianças são bem recebidas no Outro Mundo, sejam ou não batizadas. Aí elas crescem e são adotadas por mulheres jovens, até que lhes apareçam suas mães verdadeiras". O trecho sublinhado por nós é para chamar a atenção para a informação, hoje amplamente confirmada e difundida pelo Espiritismo, segundo a qual as crianças mortas continuam crescendo e desenvolvendo no Plano Espiritual. Quanto à sua adoção por mulheres jovens, como já detalhava Swedenborg, convém citar aqui também a experiência do Espírito Cláudia Pinheiro Galasse, desencarnado aos 19 anos, que teve como tarefa inicial cuidar de crianças desencarnadas com até dois anos, num educandário no Mundo Espiritual. No livro Escola no Além, que ela escreveu através de Chico Xavier, Cláudia revela detalhes da assistência às crianças e diz textualmente: "Estou feliz porque estou aprendendo a amar os filhinhos de lares alheios quais se fossem nossos familiares". Então, voltando a Herculano Pires, vejamos o que ele recomenda ao doutrinador nesses casos: "Tratados com amor e compreensão, esses Espíritos logo percebem a presença de entidades que na verdade já as socorriam e as levaram à sessão para facilitar-lhes a percepção do socorro espiritual antes não percebido por motivos diversos: a incapacidade de compreender por si mesmas a situação, a completa ignorância do problema da morte em que foram mantidas ou conseqüências do passado reencarnatório em que abandonaram as crianças ao léu, ou mesmo em que as mataram". Nessas condições, segundo nos esclarece ainda Herculano Pires, a reação moral da Lei de Causa e Efeito as obriga a passar pelas mesmas situações a que submeteram outros seres em vida anterior". Tratá-los, portanto, com amor e compreensão, como orienta Herculano Pires, significa falar-lhes como se fala a uma criança encarnada que surpreendamos juntos de nós, em idêntica situação: acolhê-la, consolando-a, dizendo-lhe que tudo está bem, que a mamãe não desapareceu, que ela está sendo protegida, que tem pessoas amigas cuidando dela, tentando enfim confortá-la através de uma psicologia adequada, fundada no amor e no bom-senso.

 

E quanto às manifestações de Espíritos na condição de crianças que se apresentam em quadros obsessivos junto de crianças encarnadas, sugerindo-lhes posturas agressivas, proezas diversas, brincadeiras extravagantes, com fim premeditado de conduzi-las a acidentes fatais, ou até mesmo ao suicídio?

A obsessão na infância é uma realidade. Estão por toda parte e em todas as épocas. É muito conhecido, no Evangelho, a passagem em que Jesus expulsa um Espírito que atormentava um menino: "Senhor, tem piedade de meu filho, que é lunático e sofre muito: cai ora no fogo, ora na água..." , queixa-se um homem ao Mestre, apresentando o menino que os apóstolos tinham, em vão, tentado curar. Grifamos a palavra lunático, usada para designar pessoas desequilibradas, sob influência da Lua, doidas, maníacas, visionárias. Mas vamos a uma situação mais local: Carlos Bernardo Loureiro fala, em A Obsessão e seus Mistérios, de uma menina de cinco anos que conversava com um Espírito que se apresentava também como menina, sob o nome de Lene. A entidade sugeria à garota pular do alto do sobrado onde brincavam, que ela a apararia embaixo. Na verdade, ela estava induzindo a criança ao suicídio. Apavorada, depois que a filha lhe contou que ainda não havia pulado porque tinha muito medo de se ferir, a mãe correu com a menina para os psicólogos e psiquiatras imaginando que a criança estivesse sofrendo de distúrbios mentais. A coisa piorou, obrigando a mãe, em pânico, a recorrer ao Espiritismo. Não foi fácil atrair a entidade às sessões de desobsessão, até que ela cedeu, revelando-se um Espírito sofrido, cheio de mágoas, traumatizado, obcecado por incontido desejo de vingança. Sua vítima, no caso a menina que induzia ao suicídio, fora seu desafeto noutra existência e escapara da justiça dos homens por tráfico de influência, em virtude do poder de que desfrutava na sociedade em que ambos, obsessor e obsidiado, viveram. Conta Loureiro que a melhor estratégia para convencer o obsessor foi respeitá-lo, levando em consideração as suas idéias, embora torpes, com que tentava impor como legítimo o fato de estar procurando fazer justiça com as próprias mãos.

 

E qual a orientação quando a entidade que se manifesta como criança se inclui entre os Espíritos protetores, guias espirituais ou membro de falanges de socorristas espirituais?

Mais uma vez recorremos à opinião respeitável do professor Herculano Pires, que se referindo diretamente a este aspecto por demais delicado das manifestações espíritas, recomenda textualmente: "Quanto às manifestações de crianças que são consideradas como Espíritos pertencentes a legiões infantis de socorro e ajuda, o esclarecedor não deve deixar-se levar por essa aparência, mas esclarecedor o Espírito para que ele retome com mais facilidade a sua posição natural de adulto, o que depende apenas de esclarecimento doutrinário."

 

E quando os Espíritos se apresentam condicionados como debilóides, loucos, exibindo defeitos, limitações físicas, ou ainda formas larvares ou animalescas?

De volta à erraticidade, os Espíritos não rompem de imediato com as aptidões, vícios e inibições que o caracterizaram na experiência física. Como desencarnado, o Espírito continuará exibindo e experimentando as mesmas limitações e condicionamentos de sua existência carnal, por mais ou menos tempo, dependendo do seu grau de evolução, do preparo espiritual. Assim, continuam com seus defeitos físicos, suas limitações psíquicas, as antigas enfermidades, os mesmos desequilíbrios, vícios e imperfeições, até que, assistidos por benfeitores e tratados em instituições espirituais apropriadas, tenham superadas suas inadaptações e se vejam, finalmente, reintegrados à vida normal do Outro Mundo. Ora, nesse período de readaptação à erraticidade, eles poderão se manifestar nas sessões de desobsessões como recurso de orientação e esclarecimento. O professor Herculano Pires é de acordo que esses seres "sejam chamados à razão" pelo esclarecedor. E justifica sua orientação esclarecendo que esses Espíritos são da classe dos que "se entregam comodamente à lei de inércia, querendo continuar indefinidamente como eram na sua encarnação". Ele aconselha que o esclarecedor não deve contemporizar com essas situações, devendo empregar todos os meios para retirá-lo da acomodação, induzindo-os à reflexão e ao exame de suas responsabilidades na recomposição da própria caminhada evolutiva, utilizando-se dos imensos recursos que a Providência Divina lança em profusão ao alcance de todas as almas.

 

Mas o Espírito de um louco pode também se manifestar, em alguma reunião, sem a loucura?

A questão 375, do Livro II, Capítulo VII, de O Livro dos Espíritos, nos remete ao seguinte raciocínio: "O Espírito, no estado de liberdade, recebe diretamente suas impressões e exerce diretamente sua ação sobre a matéria; encarnado, porém, encontra-se em condições muito diferente e na contingência de só o fazer com a ajuda dos órgãos especiais". Conclusão, portanto: se não é o Espírito que é louco, mas, sim, as distorções do seu cérebro que o levam a se comportar como tal, é claro que gozando da liberdade, ou seja, sem as restrições que lhe impõe o cérebro lesado, ele terá condições de se manifestar sem a loucura; como o cego, sem a cegueira; o surdo, sem a surdez; o mudo, sem a mudez. E aRevista

Espírita nos dá exemplos dessa natureza de manifestações, inclusive com um idiota encarnado que, evocado, comparece à reunião e fala normalmente de suas limitações de encarnado. Mas é ainda O Livro dos Espíritos que nos adverte na mesma questão: como a matéria reage também sobre o Espírito, transmitindo-lhe, via perispírito, as impressões e sensações, "pode acontecer que com o tempo, quando a loucura durou bastante, a repetição dos mesmos atos acabe por ter sobre o Espírito uma influência da qual não se livra senão depois de sua completa separação de todas as impressões materiais". É por isso que temos, às vezes nas sessões, Espíritos que se manifestam como se fossem realmente loucos, sem ligar nada com nada, dominados pelas mesmas limitações de quando estavam encarnados. Com a continuidade das reuniões, eles vão sendo esclarecidos até se reencontrarem finalmente.

 

Como tirar o Espírito comunicante de uma idéia fixa?

Se o Espírito demonstra que está dominado por uma idéia fixa, ou seja, andando em círculo sem conseguir sair dele, o médium esclarecedor deve tomar a iniciativa de tentar quebrar esse monólogo. Há casos em que a entidade repete de tal forma o objeto causa da sua fixação mental que não consegue nem ouvir o esclarecedor. É como se fosse um disco emperrado, alguém com todas as suas atenções centradas numa única preocupação da qual não consegue se libertar. Cabe ao esclarecedor fazer perguntas oportunas e com interesse fraterno, tentando chamar a atenção do Espírito para algo diferente, ou entrar no seu tema para logo puxá-lo para outros ângulos ou assuntos que possam atrair seu interesse e descongestionar o seu campo mental. Num dado momento, no Grupo Espírita Paulo e Estêvão, o esclarecedor tentava convencer um Espírito de que não lhe interessava mais a farda que desaparecera em combate e que ele tentava reaver desesperadamente aos gritos: — Eu quero a minha farda!

Eu quero a minha farda!... De nada valia o esforço de esclarecimento, porque o Espírito

continuava gritando que queria a farda, não podia ficar sem a farda. Foi aí que um dirigente militar pediu permissão ao esclarecedor, tomou-lhe a palavra e se voltou, solícito e com firmeza, para a entidade dizendo-lhe: — Você está com a razão, meu amigo... um militar não pode ficar sem a farda! E concluiu, incisivo: — Está aí a sua farda... está tudo bem, agora. A entidade acalmou-se, dando a idéia de contentamento, e passou a ouvir o esclarecedor. Quer dizer: não adianta teimar com o Espírito fixado numa idéia. É preciso, primeiro, removê-lo da fixação, para tentar, então, o diálogo esclarecedor.

 

Como encaminhar o diálogo com um Espírito que se julga protetor de determinados pacientes, sem que na verdade o seja?

Nesses não há maldade, propriamente falando. Há mais ignorância quanto ao seu verdadeiro estado. Eles acreditam que estão ajudando as pessoas às quais se mantem vinculados, geralmente por parentesco, mas involuntariamente estão é prejudicando-as. Compete ao esclarecedor examinar esses quadros com segurança e chamar esses Espíritos à realidade que ainda ignoram. Considerar justas e nobres suas intenções, fazendo-os ver, porém, a necessidade, primeiro, de se melhorarem para ter condições reais de ajudar a pessoa ou pessoas pelas quais demonstram afeição, se assim for permitido pelos Espíritos superiores. Por enquanto, deverão se ater ao tratamento de si próprios, se é que são, de fato, ignorantes de sua verdadeira situação. Se forem Espíritos embusteiros, mistificadores, terão de ser desmascarados e chamados a reformular a conduta moral. Aí entra outra psicologia de doutrinação já abordada noutros itens deste trabalho.

 

Que orientação o esclarecedor deve dar a esses Espíritos que se dizem sofrendo porque não pagaram promessas a santos feitas em vida, que pedem para mandar celebrar missas, acender velas, rezar ofícios ou queimar incensos, etc.?

O médium Divaldo Franco comenta, em Diretrizes de Segurança, ser inevitável que muitos Espíritos, que são as almas dos homens e que estavam habituados às tradições dos cultos externos, rituais e místicas a que se afeiçoaram nas experiências religiosas, retornem do além-túmulo fazendo esses pedidos e recomendações absurdas quanto a uma aparente necessidade dessas manifestações de crenças baseadas nos dogmas e fórmulas exteriores. Allan Kardec formulou aos Espíritos codificadores a seguinte pergunta na questão 553 de O Livro dos Espíritos: "Qual pode ser o efeito das fórmulas e práticas com ajuda das quais certas pessoas pretendem dispor da vontade dos Espíritos". Resposta dos Espíritos: "... Todas as fórmulas são enganosas; não há nenhuma palavra sacramental, nenhum sinal cabalístico, nenhum talismã que tenha uma ação qualquer sobre os Espíritos, porque estes são atraídos pelo pensamento e não pelas coisas materiais". Por isso, conclui Divaldo Franco, seguindo o raciocínio inicial da sua abordagem em Diretrizes de Segurança: "Qualquer manifestação de culto externo, por desnecessária, é de segunda ordem, não merecendo maior consideração no que tange à educação mediúnica". Nós achamos, assim, que o doutrinador não deve alimentar essas ilusões no Espírito inconsciente, mas antes persuadi-lo quanto aos deveres e responsabilidades do verdadeiro crente, mas isso o fazendo fraternalmente e não com o sentimento de presunção, nem de querela, nem de imposição.

 

Como o esclarecedor deve tratar os Espíritos que se identificam como padres, freiras, pastores e outros tipos de religiosos que se ocupam unicamente de combater o Espiritismo, mantendo a mesma postura de quando eram encarnados?

Vamo-nos socorrer mais uma vez das luzes deixadas pelo professor Herculano Pires em suas obras. Em Santos, Diabos e Cléricos, Capítulo IV de Obsessão, o Passe, a Doutrinação, ele diz que quanto aos Espíritos de padres, freiras, frades e outros clérigos que se apresentam mais insistentes nas reuniões, querendo discutir sobre interpretações evangélicas, "o melhor que se pode fazer é convidá-los a orar a Jesus. Embora manhosos, são Espíritos necessitados de ajuda e esclarecimento. Com sinceridade e amor, são facilmente doutrináveis". E prossegue nas suas orientações: "Mais raras são as manifestações de pastores protestantes e de rabinos judeus, mas também ocorrem. Manifestam-se sempre demasiadamente apegados à letra dos textos bíblicos e evangélicos. Inútil entrar em discussão com eles. Tratados com amor e sinceridade acabam retirando-se e já entregues a antigos companheiros de profissão, já esclarecidos, que geralmente os trouxeram à sessão mediúnica para aproveitar as facilidades do ambiente". Nós mesmos da Mediúnica do Grupo Espírita Paulo e Estêvão, temos testemunhado muitas manifestações de religiosos que terminaram inclusive se integrando aos trabalhos espirituais da Casa. Muitos deles revelam depois nomes de superiores, que jamais imaginávamos, como sendo os Espíritos de religiosos que os trouxeram ao esclarecimento: são padres, bispos, frades e freiras. "Nossa função nas sessões"— orienta Herculano Pires — "é ajudar essas criaturas a se libertarem do passado, integrando-se na realidade espiritual que não atingiram na vida terrena, enleados nos enganos e nas ilusões de falsas doutrinas".

 

E qual a atitude a assumir diante da visita de outros Espíritos que se proclamam Santos e que ali estão para ajudar as pessoas com velhas promessas do céu beatífico e da salvação pela fé cega?

Da mesma maneira como agem geralmente os Espíritos de religiosos, outros Espíritos comparecem a essas reuniões se anunciando santos e condenando sempre as práticas espíritas. Aqui, o doutrinador deve ter habilidade suficiente para saber distinguir dos Espíritos brincalhões e mistificadores as entidades ainda realmente apegadas aos seus títulos e hábitos religiosos. Os supostos santos usam uma linguagem melíflua, dando a idéia de falsa bondade, para iludir os incautos. Basta o doutrinador lembrar-lhes que se eles fossem realmente santos não estariam preocupados em combater as sessões mediúnicas sérias, envolvidas unicamente com a caridade e a prática dos ensinos de Jesus. Aconselha- nos o professor Herculano Pires a não perdermos muito tempo com eles, mostrando-lhes que eles é que estão no mau caminho e que nada vão conseguir com suas manhas. Muitas dessas entidades, que precisam também de esclarecimento, se proclamam mensageiras de Nossa Senhora, de São Francisco e do próprio Jesus Cristo, vivenciando ainda as mesmas ilusões que cultivaram em suas experiências religiosas. Fora delas, há os Espíritos brincalhões e mistificadores que não perdem oportunidade para impressionar as pessoas excessivamente crédulas.

 

BEZERTA, Menezes.A Loucura sob Novo Prisma Rio de Janeiro –RJ, Editora FEB 9ª Ed. 1996.

36. FRANCO, Divaldo Pereira. Loucura e Obsessão ( Espírito Manoel P. de Miranda ) Rio de Janeiro –RJ, Editora FEB,

1ª Ed. 1990.

37. FRANCO, Divaldo Pereira. Palavras de Luz

38. IMBASSAHY, Carlos Brito. Quem Pergunta Quer Saber - São Paulo, Editora Petit, 3ª Ed. 1993.
39. PEREIRA, Ivonne A Recordações da Mediunidade – Rio de Janeiro – RJ, Editora FEB
40. MIRANDA, Manoel Philomeno. Vivência Mediúnica – Salvador –BA Editora Alvorada 2ª Ed. 1994.
41. MIRANDA, Hermínio C.Diversidade dos Carismas - Teoria e Prática da Mediunidade. Rio de Janeiro –RJ, Editora

FEB
42. MIRANDA, Hermínio C.Diálogo com as Sombras – Rio de Janeiro –RJ, Editora FEB 10ª Ed. 1997.
43. Reuniões Mediúnicas - Coleção Estudos e Cursos - Centro Espírito Allan Kardec, Campinas - SP.
44. SCHUTEL, Caibar Médiuns e Mediunidades Matão –SP, Editora O Clarim 8ª Ed. 1984.

 

 

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